Para Tacla (1984), entre a relação homem e cerâmica se concretizou aproximadamente em 6000 a.C., quando os povos primitivos perceberam que o barro, quando deixado sob o sol escaldante do Mar Mediterrâneo, endurecia. Quanto mais abrasador o sol, mais firme ficava o barro. Nascia assim, a cerâmica e, com ela, todas as suas utilidades. As primeiras idéias surgiram no momento em que o homem, na beira de um lago, bebia água em suas mãos em forma de concha, descobrindo, assim, o formato ideal para potes que o serviriam em seu dia a dia. Foi também com esse espírito que os egípcios construíram seus primeiros monumentos com blocos de barro secos ao sol.
A partir deste princípio básico, o homem tornou-se um criador. A cerâmica é uma arte tirada exclusivamente da natureza, propiciando a todas as pessoas, o direito de produzi-la e usá-la. As primeiras pinturas em cerâmica decorreram da descoberta, pelos povos primitivos, das pedrinhas, que, ao se esfarelarem e misturadas na água, tornavam possíveis a ornamentação das peças ainda quentes.
A picareta dos arqueólogos, ao remexer entre os sedimentos que os séculos acumularam no solo do Velho Mundo, encontra com muita freqüência, entre os resíduos das palafitas e das casas, fragmentos de terracota e cacos de vasos ou de ânforas, cozidos num fogo que se apagou há milhares de anos.
Da idade das palafitas à Idade Média, a história da cerâmica e da terracota confundiu-se em certo sentido, com a própria história da civilização: os vasos, as taças ou as ânforas, são em muitos casos, os únicos elementos sobre os quais podemos reconstruir o grau de evolução, os hábitos, a religião e até as mudanças de povos já desaparecidos.
A arte da cerâmica prosperou entre quase todos os povos ao mesmo tempo, refletindo nas formas e nas cores, o ambiente e a cultura dos diversos países. Nas primeiras peças decoradas, os motivos artísticos eram sempre o dia a dia do povo: a caça, os animais, a luta, etc.
No Mediterrâneo, algum trabalhador desconhecido inventou o aparelho, que permitia fazer vasos perfeitos, de superfície lisa e espessura uniforme, num tempo relativamente breve. Esta roda de madeira movida por um pedal foi criada aproximadamente em 2000 a .C..
Com a prosperidade da cerâmica, cada povo descobriu seu estilo próprio, e com isso, surgiram novas técnicas. Foi assim, segundo Tacla (1984), que os artífices chineses, desde a metade do terceiro milênio antes de Cristo, souberam criar objetos de requintado design, sabiamente pintados e esmaltados. Foram justamente eles os primeiros a usar, a partir do segundo século antes da nossa era, aquele finíssimo pó branco, o caulim que permite fabricar esplêndidos vasos translúcidos e leves. Nasce, então, a porcelana, que deu aos artesãos chineses uma fama mundial, até hoje incontestável.
Os gregos continuaram por muitos séculos, produzindo as melhores peças de cerâmica do Mundo Mediterrâneo, mesmo quando as margens deste mar haviam se tornado colônias romanas. Ainda em nossos dias, perdura a fama dos vaseiros de Atenas e Samos, de onde seus inúmeros pratos e taças de delicado acabamento, se caracterizavam por ter o fundo negro ou azul e desenhos escarlates. De outro lado, os gregos foram durante o domínio romano, os artífices mais apreciados, não só na cerâmica, mas também na ourivesaria, na pintura e em qualquer outro ramo de arte. Seu bom gosto, sua filosofia, sua literatura, havia se imposto aos rudes conquistadores latinos, que acabaram assimilando, instintivamente, a milenária cultura da Helade.
Também na Itália existia um florescente artesanato: os etruscos, que em meados do segundo milênio antes de Cristo já fabricavam vasos esmaltados de grande qualidade. Cerâmicas etruscas ornamentavam, além das gregas e persas, as mansões dos patrícios romanos: as formas bizarras, os esmaltes vivos e brilhantes, os vagos desenhos ornamentais, conferiam a estes vasos uma preciosidade mais objeto de arte que utensílio de uso cotidiano.
Ao que se refere à Pérsia, Tacla (1984) comenta que a arte insuperável dos Sumérios e Babilônios não se extinguira e continuava a produzir, além de ânforas, bacias, taças esculpidas e pintadas, maravilhosos azulejos, para revestir fachadas e vestíbulos. Devido a dominação árabe do Mediterrâneo, entre o sexto e o décimo-quarto séculos antes de Cristo, a cerâmica da Pérsia foi difundida, juntamente com sua técnica para a Sicília, Espanha e Ásia Menor.
Por causa disso, ainda hoje, por onde se estendeu o Império dos Califas, é possível admirar esses produtos, encontrados em palácios fantasticamente ornamentados, com molduras de cerâmica brilhantíssima, pátios de decoração rebuscada, compostos de milhares de azulejos esmaltados. Esse tipo de cerâmica branca é denominada Maiólica, superfície lisa e vidrada e foi muito usado na Itália, especialmente no período do Renascimento. Seu nome deriva de uma ilha do arquipélago das Baleares (hoje Majorca), onde os árabes haviam implantado uma indústria bastante florescente.
Na Itália, os ceramistas continuaram a trabalhar com velhos sistemas etruscos e gregos, ainda durante os séculos obscuros da Idade Média. No início do Renascimento, havia produtos manufaturados em Gubbio, Volterra, Faenza, Deruto e Montelupo. Em todas estas cidades, desenvolveram- se indústrias bem distintas, cada qual com estilo e técnica própria: os sistemas de cozimento, de esmaltar, a composição dos vernizes, tudo era mantido em rigoroso segredo. Basta lembrar, entre os ceramistas italianos, Luca e Andrea Della Robbia, que souberam criar aqueles maravilhosos baixo-relevos de terracota vidrada e pintada, que se vêem em quase toda parte, nas paredes das vilas e dos castelos da Itália Central.
Cerâmica decorada

A escola de Faenza ganhou tanta celebridade que deu seu nome a todos os objetos de cerâmica que, da Itália, se difundiam pela Europa: daí o nome faiança em português, e o faience, lembrando o nome da cidade Romana. As cerâmicas de Faenza e a Maiólica são muito parecidas, sendo muito difícil distinguir uma da outra. Atualmente, é denominada de faenza toda a cerâmica que pode entrar nesta classificação, devido as técnicas utilizadas, e, de Maiólica, curiosamente, somente as faenzas italianas.
Quanto à porcelana que nasce das mãos delicadas dos artíficies chineses, sua difusão na Europa não foi notável antes do século XVIII. São famosas as fábricas de Sèvres, na França: de Karlsruhe, na Alemanha e de Capodimonte, na Itália. Em Sévres e em Capodimonte, especialmente, são fabricadas aquelas graciosas e delicadas estatuetas que, às vezes, assumem excepcional valor artístico pela perfeição do acabamento ou pela raridade do desenho.
De acordo com Tacla (1984), a Cerâmica Pré-Colombiana se caracteriza por todas as peças feitas na América antes de Cristóvão Colombo. Como esta é uma arte de todas as épocas, todos os povos americanos fabricavam vasos esmaltados ou pintados, dignos de figurar ao lado dos mais belos da Grécia e do Oriente. No México, os maias, os astecas e os toltecas produziram grande quantidade de ânforas, finalmente esculpidas e pintadas. No Peru os incas, ou mesmo os povos que os precederam no domínio do país, deram vida a um artesanato excepcionalmente hábil e rico em personalidade.
No Brasil, o mais antigo centro de cerâmica encontrava-se na ilha de Marajó, onde foi criado um estilo próprio: o marajoara. Essas peças eram altamente elaboradas e de uma especialização artesanal que compreendia várias técnicas: raspagem, incisão, excisão, engobo e pintura. A modelagem era tipicamente antropomorfa, embora ocorressem exemplares de cobras e lagartos em relevo. De outros objetos de cerâmica, destacavam-se os bancos, estatuetas, rodelas-de-fuso, tangas, colheres, adornos audiculares e labiais, apitos e vasos miniatura.
A cerâmica, tanto de uso comum como artístico, é produzida hoje por toda parte, seja em grandes estabelecimentos, ou por pequenos artesãos. Os sistemas são fundamentalmente os mesmos, mas é inegável que a experiência técnica adquiriu tamanha perfeição, que permite resultados extraordinários. As peças artísticas, envernizadas e cozidas até vinte vezes possuem superfícies reluzentes, com tonalidades de ouro e esmeralda, imitando o brilho do bronze e a transparência da água. Isso se comprova através da procura cada vez maior por vasos, pratos e estatuetas produzidos nos laboratórios de Faenza e Karlsrube.
Do calor do sol, para os fornos atuais utilizados para tornar as peças mais firmes, a história da cerâmica percorreu e auxiliou no cotidiano de todos os povos. Da Era Neolítica aos dias de hoje, os artistas continuam com seus dedos ágeis transformando blocos de argila e criando novas utilidades para a população.
A cerâmica hoje extrapola o dia a dia para auxiliar na área científica: na medicina, vem sendo utilizada na prótese de ossos; na pecuária australiana, reveste os chips que injetados dentro do animal, possibilitam uma contagem mais precisa e segura; os dentistas, nas obturações; algumas empresas fabricam facas com lâminas de porcelana; é ainda o material utilizado quando existe a necessidade de um produto resistente a altas temperaturas, como é o caso do trem bala no Japão, onde a cerâmica é colocada nos trilhos.
Da mesma forma, com o progressivo desenvolvimento industrial, os azulejos deixaram de ser privilégio dos recintos religiosos e dos palácios, tornando-se acessíveis a todas as classes sociais. Trouxeram, para as paredes externas das casas o colorido e o luxo das paredes internas. Deixaram de figurar apenas em obras monumentais e passaram também para as fachadas dos pequenos sobrados comerciais e residenciais e, até mesmo, de pequenas casas térreas. No Brasil, já independente, o uso do azulejo tornou-se, no século passado, bem mais freqüente, revelando-se um excelente revestimento para nosso clima. Casas e sobrados de muitas cidades brasileiras apresentam o colorido alegre e inalterável que, há mais de cem anos, o azulejo lhes dá.
Nos tempos modernos, com os novos conceitos arquitetônicos, o mestre Le Corbusier foi o primeiro a sentir o azulejo como um valor típico e tradicional. No Palácio da Cultura, no Rio de Janeiro, um dos grandes marcos da arquitetura brasileira contemporânea, figuram os painéis de Portinari, o famoso pintor, perpetuados em azulejos. Também Portinari pintou painéis de azulejos para a igreja de São Francisco, projetada inovadoramente por Oscar Niemeyer às margens do lago da Pampulha, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Também ali outros revestimentos menores foram usados no antigo cassino, hoje Museu de Arte Moderna.
A produção de azulejos, no atual estágio industrial do Brasil, já apresenta todos os requisitos técnicos e estéticos para fazê-los reocupar a sua posição de elemento ideal para o revestimento de fachadas.
O arquiteto Lúcio Costa, mais de uma vez aplicou-os em suas obras, inclusive numa experiência de padronagem tipicamente industrial. Mesmo porque hoje os azulejos, além das vantagens e da durabilidade dos antigos, provada através dos séculos, possuem as qualidades que uma avançada tecnologia lhes confere. Eles se mostram apropriados para pequenos detalhes, ambientes interiores ou para grandes escalas ao ar livre. São oferecidos de maneira a satisfazer os mais variados gostos, como padronagens ou diferentes texturas.
Uma vez familiarizado o leitor a respeito da história da cerâmica em diferentes países, procura-se, na seqüência, apresentar dados e informações sobre o diagnóstico do setor, ou seja, a indústria cerâmica nacional com a sua produção, exportação e consumo aparente no período de 1980 à 1996. Além destas informações, observam-se também dados relativos ao panorama internacional, aos aspectos tecnológicos e à cadeia produtiva, como as tendências do setor de modo genérico.
Extraído da internet, se alguem souber a autoria favor informar.